Maitê Proença
Do site Vida Boa

Foto Shutterstock

Em fevereiro, resolvi me fechar para balanço. O momento é de estudo para preencher lacunas de ignorância, quero aumentar minhas frentes de interesse dando a elas consistência, preciso ter o que dizer na vida, e na arte sobretudo, sem repetir fórmulas conhecidas. Muito fácil fazer de conta que estamos apresentando algo novo ao maquiar velhos modelos para que pareçam o que sabemos intimamente não ser. A preguiça se instala, acomodamo-nos e passamos anos nessa lengalenga sem que os de fora percebam que, há muito, já não criamos nada. Então, esta onda é de silêncio e observação.

Estou exausta com uma parte antiga de mim, quero outra. Nesse espírito, passei 20 dias entre Veneza e Londres investigando as artes plásticas e uns quebrados que vieram à reboque. Há tempo sem pisar em Veneza me percebi mais uma vez extasiada com aquele mar que invade a história, quanta história. Por ali, mais do que em qualquer lugar, Oriente e Ocidente se fundiram em hábitos, interesses, folia, segredos trocados… a gente vai sentindo essa batida centenária a cada viela, em toda esquina. Mercadores itinerantes mascararam-se para poderem fazer de um tudo sem serem reconhecidos. É cidade de transgressões, de gandaia e riso fácil. Mas não, eu estava lá para estudar, fiz muxoxo para as tentações, e , depois de uma rodada de Tintorettos e Ticianos – que ninguém é de ferro – me mandei para a sede da 54a. Bienal de Arte, onde deparei com o melhor e também o pior da produção contemporânea.

Difícil identificar e compreender os artistas da atualidade, era bem mais simples quando havia normas regendo cada movimento representativo. Hoje há uma constelação de possibilidades sem regras aberta a cada criador, as obras exigem o engajamento de quem olha porque existe um jogo sendo proposto que demanda esforço para tornar interessante a brincadeira. Ainda assim, alguns trabalhos batem na veia de toda a gente. É o caso de The Clock, do suíço americano Christian Marclay, um filme quase pop de tão sedutor. O monumental trabalho de pesquisa resulta em vinte e quatro horas de cenas montadas em sincronia com o tempo real. Marclay editou instantes memoráveis da cinematografia, de forma que o minuto que aparece no relógio da tela é também o mesmo do nosso pulso. Não há o enredo único mas uma montagem de tal sorte fluida, que, tendo o tempo como assunto central, a gente não sente o tempo passar, o tempo todo. É hipnótico!

Leia o artigo na íntegra

Siga a Gente no Twitter

Gostar (2 votes, average: 1,00 out of 1)
Espalhe

Notícias