Mauro Ferreira
Foto Divulgação

Pedro Luís seguiu, enfim, o bloco do eu sozinho. Em atividade desde os anos 80, década em que integrou o extinto grupo de rock Urge, o cantor e compositor carioca somente agora lança seu primeiro disco solo, Tempo de Menino. Gravado com a participação de Milton Nascimento na toada “Imbora”, o disco alinha no repertório 12 músicas de autoria de Pedro e a regravação de “Hoje e Amanhã Eu Não Saio de Casa”, música lançada por Luiz Melodia em 1980. Projetado por seus trabalhos coletivos com os grupos cariocas Parede e Monobloco, o artista fala na entrevista de sua conexão com Portugal, da importância de sua mulher, Roberta Sá, no processo de feitura do disco e da emoção de cantar com Milton.

O disco tem uma diversidade rítmica, indo do samba à toada…
Pedro Luís (interrompendo)
– …Sim, a ideia foi apresentar coisas que normalmente eu não faço com a Parede, pois a gente tem uma pegada mais rock. Neste disco, eu também parto para o campo das baladas, das toadas… Coisas que também fazem parte do meu universo de compositor, mas que nunca tinham sido gravadas por mim.

E você já se sente seguro como cantor, já que agora você não tem a Parede para se encostar?
Pedro Luís
– Sim… Nos últimos trabalhos com a Parede, Ponto Enredo e Navilouca, eu já fiz um trabalho diferente como cantor, de busca, de descoberta… Tive o apoio do Felipe (Abreu), que é um preparador vocal incrível, que sabe descobrir e desenvolver as características de cada voz. Não sou um cantor, sou um cantautor, intérprete das minhas músicas. Mas já me sinto bem mais confortável para cantar desde os dois últimos trabalhos com a Parede. Mas deu um trabalho danado. Não foi de graça, não (risos)

Qual o recorte que você quis dar ao repertório deste disco solo, já que sua obra autoral é vasta e diversificada?
Pedro Luís
– O recorte foi feito com o intuito justamente de mostrar a variedade da minha obra como compositor, priorizando minha produção mais recente. Com exceção do “Só o Esqueleto”, que é uma música da época do Urge, banda de punk rock que eu integrei nos anos 80, tudo é relativamente recente. Algumas músicas foram gravadas por outro intérpretes, como “Os Beijos”, lançada pela Elba (Ramalho) no disco Qual o Assunto Que Mais lhe Interessa?, mas são praticamente inéditas. E tem também uma única música que não é minha: “Hoje e Amanhã Eu Não Saio de Casa” é do Luiz Melodia, uma grande referência para mim como compositor e intérprete. Embora também cante samba, Melodia desde o Pérola Negra (álbum de 1973 que projetou Melodia) também grava rock, iê-iê-iê… Ele é um exemplo de compositor de obra diversa e essa música dele tem a ver com o assunto do disco, a crônica urbana, e poderia ter sido feita hoje.

Você concorda que o recorte do repertório deixa seu disco solo identificado com o Rio de Janeiro?
Pedro Luís
– Eu sou um cronista urbano do meu tempo. Eu uso a música como instrumento, mas, na verdade, eu me considero um poeta e cronista. Sou Tijucano (o artista se refere à Tijuca, bairro da Zona Norte que viu nascer as carreiras de Tim Maia, Erasmo Carlos e Jorge Ben). Não tem como escapar dessa referência carioca. Fui moldado no Rio de Janeiro, cidade cosmopolita onde todos vem morar, paulistas, nordestinos… Mas o MiniStereo (o duo que produziu o disco) procurou captar as referências mundiais contemporâneas que estão por aí e que também estão no meu disco. Buscamos um som que fosse bem orgânico e tivesse unidade, apesar da diversidade de ritmos.

A faixa-título, “Tempo de Menino”, exala certa nostalgia da Tijuca, seu bairro natal, e do próprio Rio. Como você avalia a cidade que você exalta em outra faixa, “Rio Moderno”?
Pedro Luís
– Fiz essa música para a trilha sonora de um filme, Saens Pena, e por ser tijucando fiquei tocado pela possibilidade de fazer uma homenagem ao bairro em que me formei, onde meus irmãos moram e que eu continuo freqüentando. É um bairro que precisa ter sua autoestima recuperada pela trajetória histórica que teve, desde a aristocracia do café, depois passando pela época fabril até ser o berço de tantos grandes compositores da música brasileira, como o Erasmo Carlos, que está na faixa. Ao mesmo tempo, quis fazer uma analogia entre a Tijuca histórica e degradada e a cidade do Rio de Janeiro.

Acha que a cidade pode ser revalorizada por sediar de novo o Rock in Rio e ser o cenário das Olimpíadas de 2016?
Pedro Luís
– Acho bom. Mas acho que é preciso ter atenção para não ficar somente a fachada. A realização dos jogos Pan-Americanos em 2007 deixou poucos legados. Se bem que a interação de gente de todo mundo na cidade já é um legado, né? E o Rock in Rio foi muito legal. Com todos os defeitos, eu fui na segunda semana, quando eles já corrigiram alguns problemas de percurso, e achei tudo muito legal.

Você fecha o disco com uma canção chamada “Lusa”, gravada com a fadista Carminho. Como está sua conexão com Portugal?
Pedro Luís
– Sou filho de portugueses, hoje em dia já tenho até a cidadania portuguesa. Adoro Portugal!  O lugar que eu moraria, sem ser o Rio, é Lisboa! Adoro Lisboa. Já toquei lá com a Parede, com o Monobloco… Na verdade, eu fiz essa letra em Lisboa, numa noite de lua cheia, com uma lua linda prateando o Tejo… Imediatamente mandei a letra para o meu parceiro Antonio Saraiva e ele me devolveu a letra com uma canção linda, dolente que, apesar de não ser um fado, soa como um fado. E a Carminho deu tom fadístico, visceral, tipo Amália (Rodrigues, cantora portuguesa já falecida, a maior intérprete do fado), à canção. O Saraiva chorou. A Carminho é uma mulher bonita, jovem, que canta muito bem.

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